Blog sobre minhas experiências como professor de Ensino Fundamental e Médio e divagações filosóficas a respeito
Quem sou eu
- Lawrence David
- Professor, Músico, Audiófilo, Cientista Político, Jornalista, Escritor de 1968.
domingo, 1 de maio de 2011
Fundamental
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Divididos 2
É como se jamais nos encontrássemos verdadeiramente pra tentar entender o que está acontecendo no mundo. Porque falamos línguas diferentes, temos visões de mundo muito diferentes, temos interesses divergentes. Alunos e professores, em um certo sentido, pouco se encontram pra viverem a vida uns com os outros. Pra entenderem como pensa o seu par. Não, cada grupo vive o só seu, mas não há coletividade entre os grupos. Estão seccionados.
Movidos por energias divergentes eles não se entendem. Um aluno não entende muito bem aquelas lições de moral que nada têm a ver com o que os da sua idade falam e pensam. Os professores não entendem como o aluno pode se vestir daquele jeito, falar daquele jeito e compulsivo, ouvir aquela música horrorosa, etc.
Um aluno não entende (e nem quer entender) como os professores podem achar que aquilo que eles pensam estar ensinando tem assim tanta importância se há tantas outras coisas mais interessantes para se pensar ou fazer. Os professores não compreendem como os jovens podem passar tanto tempo mexendo no celular, falando no msn ou passeando num shopping.
Já começa pela chegada. Os professores desejam que os alunos entrem logo para aula. Eles querem fugir. “Entra logo fulano que o professor não deixa entrar depois””Tudo bem eu não gosto daquela aula mesmo”. “Se o fulano não vier hoje é zero na prova e mando chamar a mãe”.
Não dá, são universos consistentemente diferentes e têm que ser misturados todos os dias. Quem tem mais condições de agir, mudando sua maneira de agir e suas metas em virtudes escolares? Nós ou os alunos?
Divididos 1
Ideologizados e separados estamos todos
Divididos, seccionados como bobos, como lobos
Ignorados da verdadeira razão enobrecida
De comungar educação em uma vida
Ficamos soltos sem amarras uns aos outros
Livres tolos se amam pouco tristes rostos
Que dividem o afeto com os iguais
Mas ignoram sem piedade os juvenis
Tola aula doida causa que me amarra
A não querer igualá-la a dura alma
Me trai ao ser o que não quero
Tolo sou de hoje bem mais velho
Que sem poder fugir ao que espero
Mais me penso igual ao que me espelho
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Médio
Um grande Nada toma conta dos estudantes quando eles saltam do ensino fundamental pra o antigo “segundo grau”. Eles ficam bem desorientados. Sentem o verdadeiro peso de sua ignorância. Quase metade deles é reprovado no Brasil de hoje. Esse ciclo começa com um grande fracasso e com uma dúvida? O que é que eu estou fazendo aqui? Para onde eu vou? Geralmente chegando no nada, não há nada a esperar.
Lá na última série (se ele conseguir chegar lá) vai começar a ficar realmente em dúvida sobre o que vai querer de sua vida como adulto. Vai prestar vestibular, o que cada dia fica mais raro. Ele não sabe bem pra que. O Ensino Médio não responde às dúvidas e anseios do estudante. Ele não sabe para onde ir. Alternativas como o pós-médio (cursos técnicos) se tornam realidade com a necessidade cada vez mais premente de entrar logo no mercado de trabalho, mas ele não sabe bem se é isso.
Em terra Brasilis o Médio não tem especificidade. Não recupera a defasagem anterior, isto é, do ensino fundamental, simplesmente reprova ou evade 50 ou mais por cento dos cadidatos. Não apresenta tampouco qualquer especificidade. São os mesmos “conteúdos”, em geral, vistos de forma um pouco mais aprofundada. Há montanhas a serem subidas, principalmente na área das exatas: matemática, química e física muito mais difíceis e substancialmente diferentes. São essas o pavor da galera, quando não tem um professor de História ou Português mais mala que também gosta de reprovar.
Pior, tudo no plano da abstração. Pouca prática e muita teoria. Impraticável pra os estudantes brasileiros. Na organização curricular, pelo menos matemática tem todo um destaque e uma enormidade de períodos a mais que outras disciplinas. Herança portuguesa e sua paixão pelo positivismo e sua inspiração cartesiana no cálculo, anti-iluminista coimbrense (Aliás, eu não sei como professores que têm o dobro de períodos que eu, e a metade do número de alunos, consegue reprovar 100 por cento a mais ... ???)
E cobra nota, muita nota. Cobra disciplina e obediência, cobra postura de adulto, mas vive-se em um estado ocorrencial policialesco onde os alunos são tratados como menores infratores, infantilizados pelo controle de atrasos e atas administrativas. Cobra-se maturidade mas trata-se com infantilidade.
Ah, e tudo é para o Vestibular. As provas objetivas predominam, para facilitar a correção dos esgoelados professores brazucas, e também porque é para o vestibular. Lê tais livros porque cai nos vestibular. O Ensino Médio virou um grande cursão pré-vestibular e perdeu a especificidade, é um nada. Ah, mas os mais espertos se deram conta que não funciona, porque temos que dar nota no ensino médio e isso não funciona quando se fala em vestibular onde a nota é algo ponderado entre várias disciplinas, então inventaram o Terceirão. Por que não erigir logo um Quarto ano?
Mas esse meio caminho entre a infância e a vida profissional continua vazio sem uma orientação vocacional. Sem um espaço onde o aluno possa imaginar o futuro. Um espaço criativo onde ele possa criar uma alternativa de vida nesse mundo tão surrado e egoísta. E aí ele se ressente daquilo que mais faz falta no mundo de hoje na educação: a arte. O vazio artístico, a miséria intelectual em que se encontram a maioria de nossos adolescentes não poderá jamais ser sanada se os senhores da educação não pensarem uma educação mais prática, artística, crítica e mais baseada na realidade cotidiana do aluno Brasileiro, que , meio às cegas, mas com sinceridade, busca ansiosamenete seu espaço na sociedade brasileira.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Bullying
Acho tão interessante que nesse começo de século as autoridades educacionais do mundo inteiro estejam se interessando por um fenômeno que sempre existiu na educação. A intolerância às diferenças, o complexo de superioridade de certas pessoas que descarregam nos mais frágeis suas frustrações é algo recorrente e desde sempre, em minha vida de estudante, aprendi a conviver com isso.
Fiquei sem caminhar durante dois longos anos por conta de uma doença que tive em minhas pernas. Sim, fui cadeirante. Sorte minha que no princípio do tratamento, quando tinha 10 anos apenas, morei em Curitiba onde, atesto, o Bullying não existia. Fui tratado com toda a dignidade e respeito que merecia e não havia dificuldades porque era um aluno excelente, sempre entre os melhores da classe, o que chamamos de CDF.
Mas, no ano seguinte, de volta a Porto Alegre, comecei a sofrer as conseqüências de estar imobilizado e ser muito bom aluno. Certos coleguinhas cuja mamãe protegia-os de tudo não aceitavam minha língua pronta para responder – inclusive suas provocações – e se aproveitavam de minha condição desvantajosa do ponto de vista físico. Na quinta série me isolavam em algum canto do pátio, apesar de meus gritos inaudíveis em meio à multidão, e me apedrejavam com torrões de areia. O caso ia parar na direção e minha mãe sofria para convencer a diretora a tomar alguma providência, uma vez que os abusadores eram filhinhos de famílias ricas.
Na sexta série a coisa continuou, mas como minha sala era no piso térreo era mais difícil me incomodar e, já cientes do problema, as auxiliares de disciplina me vigiavam melhor. Mas, na sétima a coisa tomou proporções gigantes. Me faziam ameaças e constrangimentos psicológicos constantes, dizendo que se eu revelasse a pressão, iriam me matar ou surrar, já que eu estava caminhando e ia a pé pra casa. Depredaram o carro de minha mãe quando finalmente contei, e continuei tomando chutes, socos e pontapés durante um bom tempo até que as famílias criaram consciência dos monstrinhos que tinham em casa e apertaram o cerco. Tudo cessou, até fiquei camarada de alguns dos meus opressores e, na oitava, pra evitar outros constrangimentos, a direção mudou todas as turmas, por conta de outros casos semelhantes, e aí criei a minha turma de adolescência que foi muito legal e inesquecível, mas isso é outro papo.
Por que só agora essa lei? Não carecemos de outros relatos sobre o tema, nos filmes de Hollywood ou mesmo nos europeus, e parece que surgiu tudo agora. E mesmo com a lei, vai continuar, sabe por quê? Porque a intolerância faz parte do processo escolar. É preciso mais que leis pra curar essa ferida.
As leis não terminam com a absoluta falta de integração entre as turmas de uma mesma escola – e porque não dizer “rivalidade” – e com toda a competitividade egoísta e desmesurada da comunidade escolar. Com o “empurra pra lá” porque o problema não é meu dos pais e dos alunos. Não vai mudar a mentalidade conteudista-tecnicista-behaviorista do currículo e do método de ensino dos professores que é altamente alienante.
Nós também não deixaremos de sofrer o “Bullying Nosso de Cada dia” por parte dos governos que pouco ou nada fazem pela educação e ainda nos culpam por todos os seus problemas, inclusive financeiros. Leis são muito boas, mas, infelizmente, são apenas o começo.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Conselho
A professora interrompeu a reunião para falar urgentemente com os seus colegas sobre a situação da turma em que era conselheira.
- Pessoal, eu conversei muito com eles e eles estão falando muito do senhor professor. Uns falam muito bem, outros muito mal. Eu queria pedir que tivesse mais calma com eles, eles são tão carentes, precisam de carinho ...
Interrompi bruscamente e já, indignado.
- Peraí, professora, quer dizer que o problema sou eu. Depois de todas as ofensas que eu ouvi deles ao longo do trimestre, depois de eu ter, na primeira reunião do ano, solicitado falar com os pais deles e vocês terem me ignorado, depois de eu ter poupado a direção de registrar as ocorrências e matando tudo no peito, tu me pedes mais calma ...
Estava explodindo de raiva. A reunião com os pais tinha sido um sucesso, os alunos estavam se encaminhando para a consciência de suas burradas e a profi vinha ali me acusar e dialogar mais ainda, mais e mais. Chega, eles precisavam é de limite.
- Não, professor. Eu acho que temos que ter uma estratégia conjunta para agir com a turma. Eles reclamaram muito de ti ... – lá veio ela de novo me culpando.
- Querem uma estratégia, pois bem: Tolerância zero!
- Mais aí só vai piorar, retrucou – e os colegas desataram a me olhar com olhar de reprovação e foi um bochincho e tanto.
Me senti acuado. Quer dizer que o problema sou eu? Não é a educação que eles trazem de casa que é o problema? Eu tenho que ensiná-los a se comportar?
- Vocês vão me desculpar, colegas, mas estou me sentindo pressionado. Se eu estou com raiva? Sim, sou humano. Eu não sou obrigado aturar o que eu aturo, não sou pago pra isso ...
- É pago pra isso sim, retrucou uma professora, onde já se viu? Dentro da sala de aula tudo é tua responsabilidade.
-Em nenhum momento, respondi bufando, ofendi nenhum aluno pessoalmente, como eles tantas vezes fizeram. Não está na hora de nós mudarmos, professores, não somos nós os culpados pela turma estar fracassando. E eles vão rodar em massa, já vi isso acontecer antes aqui pelos mesmos motivos. Esse grupo está desorientado. Eles têm que mudar seu comportamento primeiro ...
-Mas são só crianças.
-É, mas a terceira pessoa, que é a turma, é um monstrinho bem idiota, que nunca deveria ter nascido, respondi esgotado.
Não é possível que ainda não tivessem se convencido que a educação que aqueles alunos (não) traziam de casa é que era o problema. Os pais que precisam vir a reuniões de turmas muito indisciplinadas adoram reclamar e fofocar fora da escola, mas nunca comparecem pra nos encarar frente a frente.
Por fim uma colega de quem eu gosto muito veio me aconselhar a adotar um espelho de classe para controlá-los e eu retruquei que eles tinham que aprender a se auto-gerenciar, ainda mais uma série avançada como aquela que logo estariam fora da escola. Ela argumentou que era minha missão educá-los a se comportar bem e eu disse que me recusava a fazer isso, que era coisa da família deles.
Enfim, o que era pra ser um Conselho de Classe virou uma guerra verbal de idéias filosóficas sobre educação.
Saí mal dali. Chorei, me arrependi de ter dito certas coisas, não porque estavam erradas, mas porque talvez ali ninguém precisasse, quisesse ou pudesse ouvi-las.
A raiva virou melancolia e depois tristeza. À tarde fiquei com preguiça e não consegui mais fazer nada direito. Não é nada fácil ser professor.
sábado, 15 de maio de 2010
Arte
Nada mais importante na educação do que a arte. A arte da beleza, da crítica, da profundidade, do emocional. A arte do comprometimento, da criatividade, do amadurecimento. Todo o resto deveria ser secundário. O poder da arte é muito grande, por isso ela é considerada secundária. É uma inversão absurda a que vivemos.
A frieza, a dureza, o sofrimento ao invés da boniteza. A mentira, a hipocrisia, a imposição ao invés da liberdade. São escolhas muito claras do padrão educacional que não deixam dúvidas quanto a seu caráter. Limitador, cabrestador, moldador. Não dá pra falar em ensinar sem arte. Quem não se artistifica se trumbica.
Nada compara uma bela produção plástica, uma pesquisa iconográfica, uma composição metafísica, a uma escritura autofágica. Comemos nossa própria cauda sofrendo com as agruras curriculares onde, nos parece, nada realmente importa. Dinheiro? É o que queremos quando nos educamos? É isso que compramos com nosso dinheiro? Mais dinheiro? Ou será que sabemos o que queremos comprar? Arte não se compra, se faz!
Todos precisam desesperadamente fazer arte com nossos alunos. Eles e nós precisamos disso. Sem criação não há solução. Só repetição não dá o mínimo tesão. É só castração. Abaixo a repressão! Chaga de enrolação, vamos ganhar um bolão! Viva a Educação!
Não é possível que em pleno século 21 continuemos reproduzindo as mesmas práticas de 40 ou 50 anos atrás. Que os alunos falem tão pouco. Que sua opinião seja tão pouco levada em consideração pra quase tudo o que se passa no ambiente escolar. Não é possível que não haja uma democracia plena em uma época em que democracia justifica até as maiores divindades e as piores atrocidades. Não é possível que uma andorinha só faça verão exercendo a função de carrasco peremptório da industriação do ensino. Não!
Mais conversa e menos falação. Mais música e menos sermão. Mais teatro e menos dissimulação. Nossa pátria é nosso coração. Chega de controlação, chega de ódio e recalque. Precisamos de renovação. O novo sempre vem, mas até quando vamos empurrá-lo para o mais além. Chega de clubinhos de conhecimento privado e pouca prática. Queremos aprender no dia-a-dia, onde nos leva nossa motivação. Vamos usar sempre essa tática. Onde estão os ciclos culturais, onde está o envolvimento coletivo, a troca, a confiança, o dividir? Não dá mais pra ser egoísta, todo mundo tem é que ser artista!
