Quem sou eu

Minha foto
Professor, Músico, Audiófilo, Cientista Político, Jornalista, Escritor de 1968.

domingo, 1 de maio de 2011

Fundamental

Ah, a pureza da antiga quinta série. O 6º Ano ficou difícil ultimamente. Não chegam com leitura boa e nem facilidade de conversar sobre a matéria. Têm medo de tudo. São carentes. Precisam de um pai (mãe) que lhes ensine tudo, escrever, opinar, pensar, refletir, observar, são tão verdinhos e sem experiência. Tudo é uma curiosidade, tudo é novo até que a lentidão deixa de ser tolerada. Falta de atenção e interesse também. Então os travamos. Paramos para que desçam do carro do desespero para a realidade. Nem sempre a reprovação é justa ou resolve. Algum sabidinho educadinho se salva no meio do caminho. Não devemos duvidar da capacidade que as criancinhas tem de se adaptar! E muitos deles passam?!
Na 6ª (7º ano) se acalmam. Se chegaram até aqui é porque são inteligentes. Dedicados sobreviventes aprenderam a enganar o tempo muito bem. Brincam, descobrem, sorriem, buscam inovar, sem perder o rumo. Pra quem foi de raspão aqui é um novo (grande) risco de se perder. Cuidado! A surpresa e o engano espreitam a cada esquina. Mas admiração e pureza ainda se encontram por aí, apesar das tentações. Se as tentações vencem, tudo pode estar irremediavelmente perdido. Ma sempre resta uma esperança quando se ainda é criança.
Na 7ª é o “The Top”. Rubicão da primeira intelectualidade e deveremos ter controle total da turma nessa altura. Se é o contrário, grandes tristezas, stresses e lamentos, que podem até ser construtivos pra próxima etapa. Mas se está na mão é o paraíso! Vamos, meus pupilos, aprender é bom! Devemos nos esforçar pra sermos críticos, sabermos nos comportar vida afora e sermos adultos. Abre o olho, companheiro. O inimigo está em cada canto, esperando pra atacar quando a gente menos espera. Agora é a hora de juntar nosso montinho de conhecimento pra sair vida afora rico … e sábio, ao menos.
8ª. Cuidado, no final, tudo pode mudar, há há há há ha, o inimigo está aqui. Falsa maturidade, perigo da nação. É de pequenino que se torce o pepino. Não te enganes. Não há nada pior do que ser adulto. Mas chega uma hora em que não se pode mais ser criança e o preço é caro. A coisa toda está acabando. Atrás de que máscara vou me esconder agora? Quem sou eu? Para onde estou indo? Eu não posso mais só brincar. A hora é agora. Ponham o dedo aqui aqueles que querem se tornar maduros e felizes. Que querem achar um lugar ao sol pra viver até a velhice tranquila. Acho que, no fundo, todo mundo quer isso. Então trabalhemos. Mesmo que pareça difícil e custoso largar toda essa mordomia. Era hora de se ajeitar.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Amedrontado

No dia seguinte à tragédia carioca de realengo senti receio de ir dar aula. Já não vem sendo dos melhores meus últimos tempos como mestre. A inquietude no meio de meus pupilos está cada vez maior. Semana passada as goleiras de futebol de salão foram jogadas em frente à minha porta e tivemos que esperar a polícia chegar e registrar a ocorrência para iniciarmos nossas aulas pela manhã. Os livros e objetos de uma colega foram atirados ao chão, alguns quebrados. Tudo ocorreu pela madrugada quando não há segurança nem vigia. Foi só pular o frágil e baixo muro e … arrombar as portas, arrancar grades cimentos e completar o quadro de estragos. Na outra manhã nossas fechaduras foram entupidas para não conseguirmos entrar, e assim se vai.
Ano passado, algum jovem idiota, publicou através de um orkut hackeado, impropérios contra a minha pessoa. Provavelmente o mesmo imbecil foi lá no meu blog e mandou eu me f.. Ora, isso está virando rotina. Como pode virar rotina a situação fluminense. O assassino inspirou-se em outros acontecidos semelhantes como mostram as cartas deixadas á polícia. Acontecimentos como esse vão se espalhar. E o Bullying vai acabar? Tem, de fato, como controlar? Uma lei basta pra impedir? Na UFRGS os trotes violentos continuam, eventualmente alguém se enfurece e comete loucuras, um bixo rebelde é humilhado até quase a morte ou sérios danos físicos, e acabou? Não, não acabou.
Comoção, esprememos nossos sentimentos, na assembléia do Cpers, sexta-feira fez-se um minuto de silêncio, aliás absoluto, nem suspiros se ouviam. Foi emocionante, estamos todos de parabéns, mas o que faremos concretamente? 10% de aumento não vai melhorar significativamente nossas vidas o suficiente para aliviarmos nossa tensão que eventualmente tensiona nossas crianças. 60 horas de jornada nos faz dizermos besteiras e tomarmos atitudes provavelmente exageradas para com os impertinentes. Mais problemas, parece que vai melhorar? Não vejo luz no fim do túnel.
A educação brasileira vem melhorando, é o que diz o IDEB. Não vem, sabemos, vem piorando. Temos um monte de projetinhos do governo federal, nos mandam revistas e bons materiais, mas a vida do mestre continua muito difícil. Acho que o número de estudantes que gostam de ler e estudar, que têm uma educação mínima e satisfatória proporcionada pelos pais, pelo menos no RS vem caindo, vertiginosamente. Estamos diante de uma geração problema. Alienados, letárgicos, consumistas, mal alimentados (salgadinho e refrigerante), revoltados, hedonistas e egômanos, cada vez mais.
É muito pouco o que vem sendo feito pra melhorar de fato a educação. Ao invés da aproximação e da integração, a distância e o medo, é o que nos resta. Não mais podemos sonhar com um futuro próximo melhor para nossa vida. Aqui no sul governo e sindicato se uniram pra nos dar o que quiserem, de acordo com seus planos políticos pré-agendados e sacramentados na burocracia do partido e, é claro, com a permissão dos empresários. Os mesmos que implementaram e defendiam piso nacional já quando oposição, agora pedem um (longo) prazo para implementá-lo enquanto governo. “Não temos dinheiro”, dizem. Já ouvi isso antes.
Eu creio que jamais, no discurso de um político, haverá grana suficiente para reformar satisfatoriamente a nossa pobre educação, insuficiente educação, medíocre educação. Está nos planos do Brasil ser respeitado lá fora e se integrar na globalização econômica. Não está nos planos investir pesado na educação, nem acabar com problemas prementes como a violência nas escolas e a péssima remuneração dos professores, que não têm direito sequer ao piso que o próprio estado elaborou. Teremos que esperar. Há, sem dúvida, muita comoção, mas pouquíssima ação. E meu medo é que essa atitude revolucionária tão necessária, não chegue nunca.
Vem se noticiando que há vagas no mercado, mas não há mão-de-obra qualificada. O pior não é dito. Que espécie de intelectuais criarão a tecnologia que levará nosso país ao primeiro mundo, se essa galera se emburrece com o superficialismo do dia-a-dia, com o quanto pior melhor, com o preconceito contra o aprender? A legitimação da violência como forma de resolução de problemas fecha a questão no que tange ao que podemos esperar. Tirinhos e mais tirinhos solucionarão tudo, e que aumente a venda de armas pro cidadão se defender.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Feliz 2011!

Desejo a Todos os que por aqui passam um Feliz Ano Novo, Vida Longa e Próspera!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ENEM


Há 30 anos atrás o vestibular parecia condenado. Enquanto vivíamos o fim da ditadura e lutávamos por uma sociedade mais justa e igualitária, discutíamos como aquele governo podia ter se vendido tanto à ideologia norte-americana. Era possível, apesar de todos pagarem a conta, que só alguns privilegiados tivessem acesso à Universidade Pública? E os sistemas de avaliação, copiados da cartilha yankee que reproduziam a velha competitividade protestante-capitalista? Com o passar do tempo passamos a chamá-las de “questões do tipo objetiva” (falsa objetividade, por trás do enunciado e das alternativas, está a escolha do examinador).
Quando prestei a seleção pra UFRGS pela primeira vez, em 1985, o modelo “objetivo” estava predestinado a desaparecer e nos anos seguintes surgiram as questões discursivas no exame da Federal. Elas eram bem interessantes e, como exigiam a escrita, habilidade fundamental ao estudante, a seleção era melhor. Mas o Sistema não deu certo. Levava ainda mais tempo do que hoje pra corrigir as provas. O estado falido da Nova República sucateava as Universidades públicas. O retrocesso ao modelo antigo (pseudo) objetivista chegou pra ficar.
Ninguém podia imaginar que tempos bicudos viriam. A era FHC. O neoliberalismo globalizante bateu feio, e os mecanismos de responsabilização das classes menos favorecidas apareceram, mais uma vez, importadas do Tio Sam. A culpa não era do estado, que diminuía, murchava ao som de uma valsa triste, e ignorava as áreas sociais. Era dos funcionários públicos e, principalmente, dos professores. Eles eram os responsáveis pelos problemas de evasão, desistência e repetência que assolavam a educação do país desde sempre.
Sua ignorância, incompetência e corporativismo desenfreados tinham criado tudo aquilo. Aquela situação vexaminosa era nossa culpa desde sempre, para sempre. Então vamos medir isso. Medir? Alguém pode medir, de uma maneira mecânica, (pseudo) objetiva, ignorando as particularidades das culturas regionais, de uma forma unificada no país inteiro, contrariando as determinação da carta maior que é a LDB, o que os estudantes andam aprendendo? Isso é o ENEM, Essa tentativa de realizar um feito irrealizável, que é ainda mais injusto que o Vestibular por ignorar as diferenças.
Vi meio de fora essa discussão recente sobre o fim do Exame. Ele se tornou algo que nunca era pra ser. Eu sempre fui contra, mas aí vi os donos dos cursinhos pré-vestibulares defendendo o fim da prova porque o ENEM vem tomando o espaço deles desde que se criou o pró-uni. Há, há! O governo constrangeu as universidades a aceitarem o exame como critério de avaliação pra ingresso nas instituições. Os adolescentes de todo o país se voltaram ao fenômeno, a coisa toda cresceu até se tornar o monstrinho que está hoje …
Sempre achei e sempre acharei que o acesso a universidade é um direito de todos. Ninguém que contribua com impostos tem menos direito. Se não tem lugar pra todos, por que não sortear? (Ah, pode ser que tenha fraude no sorteio …) Ou será que o João da Silva, negro e que nasceu pobre e teve uma educação de baixa qualidade tem menos direito que o Maximiliano que estudou nas melhores escolas particulares? Os dois pagam o mesmo imposto proporcional à renda, imbutido na cesta básica, sacramentada pela propina nossa de cada dia … então os direitos são iguais. Sorteia.
Ou faz melhor: aumenta o salário dos professores, diminui a carga horária, bota todo mundo num mestrado ou doutorado, reduz os dias letivos, faz uma formação continuada e coloca os alunos nas universidades com as notas deles no Ensino Médio. Afinal, pra que serve o ensino Médio? Teria ele se tornado (pretensa mas infundadamente) um grande cursão pré-vestibular? Atentando pra impossibilidade de realizar tal tarefa, as particulares criaram o “terceirão”. Vamos fingir que estamos fazendo o que é impossível?
Enquanto debatemos sem respostas e sem certezas a inespecificidade do que estamos ensinando, os ricos galgam posições preparando melhor seus filhos em boas escolas pagas e adotando a educação integral. O que é público corre atrás disso tudo com as pseudo-avaliações ditando direções errôneas, competitivas e pouco solidárias, e só onde o Brasil não avança muito e profundamente, é na educação. Eu, continuo com minha incredulidade agnóstica.    Fotografia by Inezita Cunha

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Loucura


Mas será que o trem azul não passa mais por aqui? Menina, mas eu vim parar aqui porque eu pensei que ainda parava. Não, porque eu caminhei muito pra subir toda essa lomba, eu subi e desci escada, eu li mais de 500 livros, eu me instrui por 20 anos seguidos, eu estudei pra concurso, eu virei noites em claro, eu dormi um dia inteiro, eu lavei muita roupa, eu bati muito xerox, eu fiz show pra dez mil pessoas! Será que isso não vale estender a linha até aqui?
Mas o que que essa gente tá pensando! Que pode olhar pra mim como se eu fosse a mosca do cocô do cavalo do bandido de um filme B? Por que, eu tenho cara de cocô? Eles é que tem cara de merda! Eles fedem, e fedem muito! Eles não são amarelo, vermelho, verde ou azul. Eles são marrons ... Quando alguém diz que a verdade é aquela, eles acreditam que a verdade é aquela, mas se amanhã alguém disser alguma outra coisa, eles mudam de opinião rapidinho, tudo pra parecerem bonitos. Sim, porque eles se acham muito bonitos. Lindos, na verdade. Olha, eles vão todo o dia no cabeleireiro, e pintam as unhas de rosa. Roossaa! Há, há, há, há ,há ,há ,há. Não aguento mais não. Ver eles ali tão supridos de trens e eu aqui subindo, subindo e nunca chegando numa parada. Pelo amor de deus, presidente, estende a linha até aqui...

Proteção



Entro na sala e ponho a armadura
sem proteção, Jorge, ninguém segura
os gritos, vaidade, suplício sem fim.
Como foi, realidade, que ficaram assim?


Só me faz de palhaço, de trouxa sofrido,
educação de verdade? Não, me encontro batido.
Me acalma o remédio, prazer escondido,
nesse modelo arcaico, velhaco e falido.


Vou me mandar pra lua ou pra uma montanha
ou rastejar na lama, assim ninguém ganha.
Quanto tempo se perde em inútil barganha?


Pra que tanta verdade se tudo é mentira?
Realidade me faz de alvo e mira,
fugindo pro médico, para que eu me insira.

Fotografia por Inezita Cunha.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Não-lugares


Outro dia, em sala de aula, eu estava dando explicação sobre um assunto que eu considerava bem complexo e que exigiria atenção total dos estudantes. Os preveni sobre isso antes, e pedi que não me interrompessem para que eu não perdesse o fio da meada. Tudo bem. Prestavam atenção e, de repente, uma moça sentada quase na frente, virou meio de costas pra mim, abriu a bolsa e retirou um espelhinho, um batom e um estojinho. Começou a retocar a maquiagem, colocou o vermelho forte nos lábios e ajeitou o cabelo. Como que contaminada, sua colega logo ao lado sacou um esmalte e começou a pintar calmamente as unhas. A essa altura, já começaram a conversar enquanto executavam o serviço.
A turma nem deu bola. Eu de imediato, não consegui interromper, pois fiquei meio pasmo. Quando me dei conta do que se passava o cheiro adocicado do esmalte de unha já tomava a sala toda e provocava caras de enjôo, provavelmente, inclusive, a minha.
Um ou dois dias depois, em um início de período com as crianças, me esforçava para conseguir algum silêncio. Reparei que havia um menino conversando (ou cantando) baixo com um colega com enormes fones de ouvido “atarrachados” na orelha, alheio ao que eu tentava estabelecer. Simultaneamente, uma outra aluna estava praticamente deitada em cima de uma classe, dando gargalhadas enquanto mostrava a tela de seu celular a outras duas que riam junto com ela.
Não sou nada a favor de moralismo ou de criticar nossa cultura sob o ponto de vista de uma outra. Mas se um aluno fizesse isso no Japão, provavelmente seria suspenso e sua família poderia ser humilhada por não ter-lhe dado educação de como se deve agir em uma escola. É claro que os brasileiros são mais expansivos e naturalmente mais inquietos e ansiosos, mas somando o fenômeno celular-internet à vaidade incontrolável das patricinhas, chegamos à seguinte conclusão: qualquer lugar é lugar pra tudo, pois, com a importância dada ao mundo virtual, cada vez menos os lugares têm significado.
Tudo virou um grande Não-lugar ou Qualquer-lugar. Quando peço licença pra passar, meus alunos não só não entendem bem o que digo, como não se movem e ainda fazem cara feia. Além da pouca mobilidade dos “filhos de apartamento”, perderam a noção de que um determinado espaço se diferencia de outro pela utilidade. Quarto serve pra dormir e namorar, sala pra ler ou assistir televisão, cozinha pra preparar comida. Mas em qualquer lugar (todos, nenhum) se encontra o binômio celular-internet.
O mundo virtual é um lugar irreal fisicamente, só existe enquanto impulsos elétricos, imagens na tela ou na mente do usuário. E para a imaginação não há limites, tampouco fronteiras entre o que é e o que não é. O paradoxo é que a imaginação deveria ser libertária, mas nos escraviza no mundo real, que se transformou em um avatar do cyberspace, delimitando padrões de comportamento sem espaço para a criatividade. Nesse confuso mundo paralelo, qualquer espaço é possível, sempre através da mesma tela.
Por isso o comportamento inconsistente. Seja na aula, num bar, no shopping, no cinema, no ônibus. Pode-se fazer de tudo, viajar conversando e navegando, ir ao cinema e ficar falando ao terlefone e claro, se maquiar na sala de aula, tudo com o celular ao alcance da mão.
 Foto by Inezita Cunha