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Professor, Músico, Audiófilo, Cientista Político, Jornalista, Escritor de 1968.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Crescimento

 por Lawrence David

Foi muito bom, quando eu me imaginava um professor, durante a faculdade. Eu era feliz em preparar materiais didáticos que um dia dariam as informações corretas aos meus alunos, levando um ponto-de-vista mais ou menos equilibrado e moderno de minha disciplina à sua presença. Oh, quanta coisa guardei pra mostrar depois, pra fazê-los saber o quanto o conhecimento é importante, o quanto a sociedade é injusta e tudo o mais. Até passar no concurso do estado eu era esse idealista convicto, em sua inabalável missão de construir o futuro por suas lições de sabedoria e abnegação no caminho do saber.
Meu primeiro ano de aula para o ensino médio foi pela manhã. Tcharam! Finalmente, minha primeira aventura como efetivo, meu emprego de mestre. Acho que naquela época eu conseguia fazer bem o que queria e desejava naquele momento. Me lembro de meu primeiro conselho de classe. Fiquei apavorado com o que meus colegas diziam dos alunos. Mas aquilo não era nada do que eu pensava sobre eles! Adjetivos de tom pessoal é o que predominava. “É um idiota, burro, ignorante”, daí pra fora. E eu, defensor dos frascos e comprimidos, já me indispus com os meus colegas ali mesmo. Depois me fiz de assustado e recuei.
Conhecendo melhor meus alunos fui percebendo suas sutilezas de personalidade e vi que a juventude em 2000, não era fácil. Gente um tanto metida ali na Zona Sul. Os alunos podiam tudo e os professores usando seu poder de vida e morte pra se proteger. O SOE não funcionava porque estava calcado no moralismo repressor e policialesco e não no diálogo. Mas eu, me salvava no meio daquilo tudo, porque minha aliança era com a gurizada. Então me protegia, enfrentando meus colegas, tentando romper os limites tradicionais da educação. Afinal, em geral, a pedagogia predominante ainda era a diretiva-bancária-seletiva.
Eu era do contra mesmo. Mas aquela lufada de ar fresco dos que entraram em 2000, transformou as coisas. Elegeram-se direções mais democráticas com a paridade dos votos entre comunidade, funcionários e professores. E aí houve uma grande transformação. Mais plurais, mais representativos da sociedade civil, esses novos núcleos diretivos deram impulso a um processo de atualização relativo à LDB, que, com todos os seus defeitos e limitações, representou, de fato, um avanço. Onde não houve grande alteração por renovação, o foi por influência da realidade, que galopava prenhe de inovações, algumas até profundas.
Surfando nessa onda encontrei meu caminho, e minhas aulas entre 2003 e 2007 chegaram em um nível, em minha concepção, bastante satisfatório. Por ver meus alunos profundamente envolvidos naquilo que eu propunha, pelas inúmeras vezes em que fui conselheiro de uma turma, pelo apoio demonstrado publicamente nos Conselhos de classe que agora eram participativos, pela amizade que ficou até hoje com muitos, pelas festas que jamais esqueceremos, pelas atividades de teatro, música e reflexão que sempre davam o que falar, tudo ficou muito legal. Eu creio que cheguei no primeiro rubicão de um professor. A mocidade madura me fez muito feliz, mas …
Veio a época das vacas magras. Do corte em cima da educação, da ameaça e do medo. Mudou pra pior. Meu salário foi achatado. Cansei de trabalhar 60 horas por semana (e ainda aos sábados). Chega! Perdi a paciência com os (pobres!) alunos. A verdade é que hoje me parecem bem mais agitados e falantes que há onze anos atrás. São mais dispersos, egoístas, respondões e não largam aquele maldito celular! Os professores evoluíram, apesar de tudo. Meus amigos me parecem mais confiantes, apesar de todas as agruras e sofrimentos, inseguranças dos últimos anos.
A escola brasileira mudou, de uma certa forma. Não sei se foi pra melhor. Hoje está todo mundo lá é verdade. Misturaram-se ricos e pobres, brancos e negros, mais do que em qualquer outra época da história. Essa diversidade é ótima. Mas e o preparo pra isso? Não houve. Não sabemos muito bem lidar com isso. Nem com a inquietude do povo jovem. Nem com o pansexualismo. Nem com bullying. Nem com os alunos inclusos. E eu fui perdendo a paciência e a esperança e me sentindo cada vez mais cansado e impotente diante da situação, e adoeci.
Não sei exatamente que tipo de mal me afetou. No meu caso tem a ver, principalmente com poluição sonora. Aquela gente falando, falando, falando o tempo todo sem parar e eu tendo que gritar pra controlar tudo aquilo. E eu não gosto de gritar enfurecido como fico. Há muita falta de respeito a nós ainda, e de todos os lados. Então eu surtei. É bem verdade, apenas duas ou três vezes, mais fiquei muito nervoso mesmo, como nunca achei que ficaria fazendo algo que sempre amei fazer. Pela primeira vez em 10 anos entrei em licença (só 13 dias), iniciei um tratamento à base de homeopatia incluindo um antidepressivo, e terminei 2010 meio instável ainda. Me estressei em momentos finais também. Andava com protetores auriculares e óculos escuros pra evitar claridade e barulho (e ainda uso, às vezes), mas sobrevivi.
Agora estou bem. Creio que toda pessoa normal e saudável como eu tem que passar por isso para repensar sua prática e recuperar a autoconfiança. Se abalar e cair para se reconstruir. Vejo gente que diz que sempre foi perfeitinho e equilibradinho cometendo atrocidades por aí. Vejo o despreparo de meus colegas pra lidar com esse novo mundo e estou mais solidário a eles do que antes, exatamente porque experienciei o sofrimento do mestre. Não é fácil essa nossa profissão. Somos humanos, falíveis e não devemos nos envergonhar disso. Se hoje já conseguimos todos pedirmos desculpas e nos tratarmos como iguais é porque passamos, juntos, por uma laboriosa fase de crescimento.   

domingo, 25 de abril de 2010

Responsabilidade

Tudo o que acontece dentro de uma sala de aula, legalmente é, em primeira e última instância, responsabilidade do professor. Negligenciamos seguidamente nosso papel de responsáveis. Por descaso ou incapacidade. Por recalque ou falta de informação. Geralmente, garantimos para nós, apenas o que parece o fruto bom de nosso espaço, mas o mal também é um pouco nosso.

Aquele aluno desinteressado, é ou está assim por quê? Porque não conseguimos atrair sua atenção. Porque não gostamos do seu jeito e então não damos bola para ele. Porque ele não gosta de nós e nada fazemos para mudar isso. A princípio, somos os que devem ter mais capacidade de resolver esses problemas, somos profissionais ou não? Não dá pra fazer uma pergunta amigável a ele? Bater um papinho, ao invés de só despejar informação em cima dele? Dá, só dá. E aí podemos ser positivamente surpreendidos por algo mais interessante do que esperávamos desse “marginal” de nossa classe. Algo ele sempre tem de bom a nos oferecer, mas não nos julgamos responsáveis por isso.

Preferimos delegar à Supervisora, vice-diretora ou orientadora uma responsabilidade que é, em princípio nossa. Somos preguiçosos para isso. Arrastamos para fora de nosso espaço, por medo, insegurança ou falta de capacidade, coisas que nos pertencem e que nos poderiam fazer feliz.

Aí fica aquela pá de gente em segunda época (quá, quá, quá), ou melhor, nos estudos de recuperação. “Ah, mas não estudaram, foi por isso, eu não coloquei ninguém em recuperação, eles é que se colocaram”. Desculpe, isso é apenas parcialmente verdade. De nosso ponto de vista eles não se adaptaram à maneira como ensinamos. Temos uma tendência a culpar o aluno por tudo. Do ponto de vista deles eles talvez não venham entendendo o que tentamos ensinar-lhes. Poucos colegas ainda consideram essa assertiva como válida. E o pior é que eventualmente é a única coisa que explica o que aconteceu de fato. Melhor cumpriremos nossa função se admitirmos nossos erros.

Não dá mais para culparmos única e exclusivamente o mundo exterior, a realidade fora da escola e os alunos pelo fracasso escolar. Precisamos nos valorizar assumindo nossa cota de responsabilidade. Se os alunos evadem, precisamos atraí-los para a escola e não culpá-los, simplesmente, por evadirem. Não temos como mudar tal fato? Sim, podemos tentar, com certeza. Um professor sozinho não pode mais ser o único responsável pela reprovação do aluno. E se ele conseguiu avançar com os outros colegas, é justo o retermos só porque não evoluiu conosco? Não, claro que não. Vamos perdê-lo pro sistema privado ou para uma outra escola e essa injustiça cometida poderá comprometer até nosso emprego. Uma turma a menos por excesso de reprovação é que é antiético, e não insistirmos com um colega intransigente para que flexibilize seu ponto de vista. Mais que isso. Todo colega consciente tem o dever ético de lutar contra os abusos no uso do poder que nos é outorgado, essa sim, é uma missão ética. Essa sim é nossa verdadeira responsabilidade.